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Abre-se uma nova janela para o conselho em Comunicação nos processos judiciais?

POSTED BY: TdQ | Seg, 24/11/2014 - 09:21

A metodologia seguida nos inquéritos dos “visa gold” e de José Sócrates cria oportunidades de assessoria mediática a favor dos indiciados. 

spin doctor

Coreografia

Há uns anos atrás o destino fez com que a LPM prestasse serviços, em simultâneo ou quase, a dois políticos que vieram a ser eleitos presidente da República, um, e, outro, primeiro-ministro, ao Supremo Tribunal de Justiça e à Associação Sindical dos Juízes Portugueses. Foi no período em que esta consultora foi identificada como a “Agência do Regime”. 

Por essa razão, sentiamos que as nossas actividades eram particularmente escrutinadas e que qualquer passo errado teria repercussões negativas não apenas para nós mas também para aqueles com os quais éramos identificados.

Procedemos, por isso, a uma revisão do portfolio de clientes, para “eliminar” os potenciais casos de risco de reputação, e estreitámos os critérios de contratação.

De então para cá, embora o nosso mundo tenha mudado de protagonistas, mantivemos - talvez por inércia - o princípio da indisponibilidade genérica para assessorarmos pessoas e instituições que estão a ser alvo de processos judiciais de alto perfil (embora estejamos agora a proceder a uma reavaliação dessa política).

Não serei, por isso, o consultor mais habilitado para escrever acerca da Comunicação dos indiciados, mas salta à vista que há um factor novo que cria novas oportunidades de “spin” e, com elas, a possibilidade de procurar equilibrar as forças no terreno.

Até recentemente havia a prática, da parte de quem administra a justiça, de cumprir prazos relativamente curtos entre a primeira detenção para interrogatório e a divulgação das medidas de coação.

Por regra, entre esses dois momentos mediava apenas um ciclo noticioso tradicional e era, portanto, difícil (se não impossível) operacionalizar as actividades de uma equipa de conselho em comunicação e assessoria mediática. E, ainda mais, de produzir resultados. 

Mas os casos jurídico-mediáticos mais recentes têm seguido um guião muito diferente.  Entre o primeiro e o segundo momentos públicos dos processos chegam a mediar quatro a cinco dias, período durante o qual se avolumam nos Media os resultados do “spin” dos investigadores (e só dos investigadores) e de uma nova coreografia adaptada aos meios televisivos.

Temos podido observar os danos para a reputação dos indiciados da cobertura enviesada desta primeira fase dos processos e temos podido aperceber-nos que a maior parte deles nunca mais recupera nos Media o estatuto de cidadão inocente (mesmo quando são absolvidos pelos tribunais). 

Com o “prolongamento” do tempo utilizado pelo sistema de justiça (e a publicação em episódios de uma novela da vida real dos “argumentos” da acusação) é possível - além de constituir um direito elementar do cidadão - criar uma narrativa alternativa áquela definida pelos investigadores e propagá-la através de canais de comunicação sejam eles clássicos e/ou sociais.

Devido à utilização massiva dos Media pelos investigadores tem sido construída a ideia comunicacional de que a coreografia usada para deter os indigitados “poderosos” constitui uma prova de confiança na produção da prova. “Os indícios parecem fraquinhos mas se eles não estivessem seguros não dariam tanto espectáculo com pessoas tão importantes”, é o resumo caricatural da conclusão da generalidade dos comentadores. 

Pois bem, no crítico combate pelo território da Comunicação, afigura-se-me viável a criação de uma narrativa alternativa: “Se realmente houvesse indícios fortes não seria necessário produzir todo este espectáculo”. Porque ninguém a utiliza?

Sabemos que existem jornalistas muito envolvidos pessoalmente com os investigadores e que outros avaliam a acção da Justiça em função do “mero funcionamento dos equilíbrios necessários ao futuro do regime”, mas a generalidade dos profissionais de informação procura tratar as fontes com noção do equilíbrio e sabemos, também, que, além dos Media de “gatekeeper”, existem, hoje em dia, muitos outros canais de Comunicação. 

O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho disse (e bem), a propósito da detenção do seu antecessor José Sócrates, que “os políticos não são todos iguais” - e esse será provavelmente o seu principal argumento eleitoral. Haverá agora um novo espaço para o conselho em Comunicação demonstrar que os indiciados não são todos iguais?

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q #TdQ