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António Pires de Lima assoprou no apito do cão

POSTED BY: TdQ | Ter, 21/10/2014 - 09:28

Ao atacar António Costa, o ministro da Economia dirigia-se apenas a um minúsculo grupo de interesses e provocou surpresa e indignação nas redes sociais.

dog whistle

Abre bem esses ouvidos que só estou a falar para ti

Nos Estados Unidos chama-se “dog-whistle politics” - a política do apito do cão - ao emprego, na comunicação, de palavras, frases e conceitos que apenas uma faixa do eleitorado compreende, identifica, “ouve”, deixando a maioria na ignorância.
Foi o que fez ontem o ministro da Economia, António Pires de Lima, quando disse que enquanto estiver no governo “não haverá mais taxas e taxinhas”.
Como se sabe, e independentemente da opinião que cada um possa ter sobre a actuação genérica do gabinete de Pedro Passos Coelho, é um dado objectivo que estamos perante o governo que mais impostos aumentou na história recente do nosso país, lançando todos os anos novas taxas, taxinhas e taxonas. Uma das mais recentes foi, perante a indignação geral, a de 10 cêntimos sobre os sacos de plástico.
Choca, por isso, a narrativa de Pires de Lima e as redes sociais foram, nas horas que se sucederam à sua intervenção, palco de inúmeras manifestações de surpresa e indignação. O que se compreende.

Afinal, estávamos perante um caso de “apito do cão

Ora, afinal estávamos perante um caso de “apito do cão”. Pires de Lima dirigia-se exclusivamente a empresários da hotelaria e pretendia relevar a circunstância de o governo, por declarada intervenção do CDS, ter prescindido de lançar uma taxa sobre as dormidas de turistas.

Pires de Lima sabe e os empresários da hotelaria também o sabem que várias autarquias projectam lançar essa taxa, nomeadamente a de Lisboa que é presidida pelo líder da oposição António Costa, e, como o CDS não tem implantação local, sente-se à vontade nesta matéria. Já o mesmo não ocorrerá com o seu parceiro de coligação PSD.
De facto, o ministro da Economia identificou António Costa como sendo um “fervoroso adepto” da criação de taxas de dormidas na hotelaria.
Imagina-se, por isso, que as palavras do ministro da Economia tiveram impacto positivo num minúsculo segmento de eleitorado, os hoteleiros, e passaram ao lado, quando não provocaram surpresa e indignação, da generalidade dos cidadãos. Tiveram esses efeitos opostos porque Pires de Lima, na ocasião, assoprou no seu “apito do cão” falando exclusivamente para um determinado grupo de interesses.
Já quanto ao alvo central dessas taxas, os turistas, estão habituados a pagar a chamada “taxe de séjour” noutras cidades e não votam cá. Nem ouvem os nossos políticos com ou sem “apito do cão”

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q