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A comunicação institucional já não vai lá com rede

POSTED BY: TdQ | Qui, 30/10/2014 - 16:06

O caos mediático dificulta as funções de triagem e de edição dos jornalistas e, consequentemente, o papel do “network” tende a ser menos relevante na assessoria de comunicação. 

multiplataform

Um sistema mediático disperso e competitivo

No outro dia escrevi aqui umas linhas sobre a comunicação do primeiro-ministro e sustentei que a mesma revela uma deficiente preparação, ou por responsabilidade do próprio Passos Coelho ou dos seus assessores. Ou seja: ou porque o primeiro não dá importância ao assunto ou porque é mal aconselhado. Seja como for o resultado é visível e faz alguma confusão a um profissional destas coisas.

Retomo hoje o assunto para ir um pouco mais longe na minha opinião sobre o “aparelho comunicacional” que deve rodear um protagonista mediático como é o primeiro-ministro, este ou outro, com enormes responsabilidades ao nível da condução do país e dos seus cidadãos e sempre alvo do ataque de interesses divergentes e adversariais.

Um protagonista com essa exposição - e essa responsabilidade - tem de contar com uma equipa que antecipe, previna, prepare, estimule ou restrinja, narre e propague argumentos, ideias e momentos através do sistema mediático.

A comunicação com os cidadãos é uma competência crítica para aqueles que foram eleitos para a acção política.

Isto dito, parece-me ser um erro de palmatória que as equipas desse “aparelho comunicacional” sejam constituidas essencialmente por jornalistas e que não integrem em funções de coordenação profissionais experimentados da consultoria de comunicação.

O “atributo” da rede de contactos, que constitui o principal argumento para o recrutamento de jornalistas, remonta ao tempo do sistema mediático do “monopólio do porteiro”, isto é, em que a comunicação fluia (ou não) através de um sistema dirigido por “gatekeepers”.

A pressão de um mundo comunicacional caótico dificulta o exercício das funções de triagem e de edição habitualmente desempenhadas pelos jornalistas e, consequentemente, o papel do “network” tende a ser menos relevante na assessoria de comunicação.

Acresce que se há atributo central na qualificação profissional dos jornalistas é aquilo a que se pode chamar de obsessão pela estória (e pela sua integridade) enquanto na comunicação o foco vai para as audiências, a geração de factores favoráveis e a persuasão.

Hoje em dia, os protagonistas necessitam de um tipo diferente de contribuições e estas apenas podem ser asseguradas através de equipas que saibam antecipar cenários - para o que é preciso ter experiência - e produzam ingredientes comunicacionais apropriados e relevantes.

No sistema mediático dos nossos dias, altamente disperso e competitivo, como é possível ter voz (isto é, sobrepôr-se ao ruído e comunicar com relevância) sem a intervenção, por exemplo, de designers ou de videográficos ou de redactores multiplataforma?

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q