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As crises do BES e da PT afectarão a qualidade do jornalismo?

POSTED BY: TdQ | Seg, 20/10/2014 - 09:15

As duas instituições têm sido dos principais investidores de Publicidade, em particular na Imprensa onde detêm quotas de mercado relevantissimas. 

press briefing

Depois do terramoto teremos um tsunami?

Há uma referência interessante às relações com jornalistas por parte do BES / Ricardo Salgado na peça que Cristina Ferreira começou a publicar no jornal Público. Foi Estrela Serrano quem chamou a atenção para essa referência.

Algures no ano de 2004, há 10 anos portanto, Salgado reuniu-se na “inesperada” vila francesa de Mégève com jornalistas que o seu banco tinha convidado e pronunciou-se sobre uma eventual fusão com o BPI.

Escreve Cristina Ferreira: As multinacionais e as grandes empresas têm uma prática de oferecer viagens aos media, o que gera um ambiente informal favorável a passar mensagens que interessam. Entre Salgado e a comunicação social sempre houve uma empatia recíproca. Salgado gostava de falar através dos jornalistas, os jornalistas viam nele o poder. Se necessitava de enviar recados, o banqueiro promovia encontros em locais inesperados. Um deles decorre em Megève, nos Alpes franceses, onde fala da tentativa de concentração com o BPI: “Não se concretizou devido ao grande peso que o La Caixa (16%) tinha. Não somos ingénuos e percebemos o risco.” Observações reproduzidas na imprensa do dia seguinte.”

Conclui Estrela Serrano: Seria útil conhecer também esse  lado da história do BES – as relações entre Ricardo Salgado e a imprensa – para uma melhor compreensão de como foi possível  um grupo com 150 anos de história dirigido por um banqueiro considerado emblemático desmoronar-se de um momento para o outro perante a (aparente) surpresa e impotência do País”.

Ora, pensando eu que muita coisa haverá a estudar sobre as relações das instituições com os Media, creio que o exemplo dado é mal escolhido porque nada do exposto indicia que a publicação das declarações apenas ocorreu por as mesmas terem sido produzidos onde o foram e nas circunstâncias em que o foram.

As declarações teriam maior propagação se produzidas em Lisboa, numa localização acessível às televisões.

Pelo contrário, recordando a situação então vivida, estou convencido que as mesmas declarações teriam certamente maior propagação se produzidas em Lisboa, numa localização acessível às televisões.

E, vivendo-se então um momento de ressaca na frustrada fusão BES / BPI, a questão teria surgido no encontro mais por pressão dos jornalistas do que do próprio Ricardo Salgado. E, se em lugar daqueles jornalistas presentes, tivessem estado outros a pressão seria idêntica.

Acresce que este tipo de prática é seguido por muitas outras entidades fora do sector empresarial a começar pelos agentes políticos e estou convencido que a própria Estrela Serrano, tendo trabalhado na Presidência da República, poderia trazer-nos muitos exemplos da criação de cenários idênticos em todos os cantos do mundo. 

Acerca desse caso concreto estamos conversados. Creio eu.

Aproveito, no entanto, a oportunidade para chamar a atenção para uma consequência especialmente grave para os Media (em particular, a Imprensa) da actual situação do BES (e, cumulativamente, da PT): o previsível abaixamento das receitas publicitárias.

BES e PT têm sido, há mais de uma década, dois dos principais investidores em Publicidade. São relevantes em todos os segmentos de mercado, mas especialmente na Imprensa, onde detêm quotas de mercado relevantissimas.

Os orçamentos de Publicidade vão diminuir dramaticamente assim como dos seus concorrentes.

Ora, face ao que tem sido conhecido sobre o futuro destas instituições e dos seus negócios, é realista concluir-se que os seus orçamentos de Publicidade vão diminuir dramaticamente e que essa redução irá provocar, como sempre acontece, um efeito de réplica da parte dos seus concorrentes. 

(O mesmo irá ocorrer no segmento dos Patrocínios. Veja-se por exemplo o que está a acontecer no futebol). 

É uma espécie de terramoto seguido de tsunami.

Este problema ocorre exactamente quando a Imprensa vive já em evidentes dificuldades e em que está a iniciar, em alguns casos,  complicados processos de reestruturação.

Se se vierem a confirmar estas minhas previsões pessimistas, então sim, estaremos perante um cenário muito negativo para a qualidade do jornalismo, certamente muito mais negativo que a situação de assessoria de Imprensa de 2004 agora reportada pelo Público.

Por altura do episódio referido, faço questão de esclarecer os mais apressados, a LPM trabalhava com o BCP.

Este post foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q