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Miguel Carvalho acha que a “Visão” é a tasca da esquina

POSTED BY: TdQ | Qui, 02/10/2014 - 10:15

Quando se fazem perguntas aos alvos da “investigação jornalística” e se omitem as respostas para não estragar o cozinhado. 

Visão Miguel Carvalho

Escreve a “Visão” que não suporto o calor dos seus cozinhados

A “Visão” volta a insistir, na edição desta semana, numa alegada ligação minha à campanha eleitoral de LF Menezes à CM Porto. Como todo o mercado sabe e um “jornalista de investigação”, por maioria de razão, devia saber, a LPM esteve, por sinal, a trabalhar na campanha do PS, óbvio concorrente de Menezes, e a campanha de Menezes foi publicamente assinada por concorrentes identificados da LPM.

A falsa ligação é, no entanto, essencial à Visão e ao seu “investigador” Miguel Carvalho para a narrativa daquilo a que chamam o “Gaiagate”.

Comparar as tretas meio inventadas de Gaia com o caso Watergate diz bem do que vai na cabeça de Miguel Carvalho, em crise de meia-idade jornalística e, coitado, sem nunca ter tido qualquer reconhecimento, nem mesmo dos pares, pelo publicado. Deve achar que ainda vai a tempo de receber um Pulitzer ou de entrar no enredo de uma novela da SIC

Mas, egocentrismos à parte, vale a pena esmiuçar o dossiê da “Visão” pelo menos na parte que me diz respeito, para que os mais distraídos se apercebam dos métodos usados nesta espécie de “ jornalismo”.

Estamos, ao que parece, perante um caso de relação privilegiada entre um grupo de empresas, associadas a uma determinada senhora, e um partido político.

Não há maneira de associarem a este dossiê, julgava eu. Miguel Carvalho encontrou uma: “a senhora odeia Luís Paixão Martins”

Nunca tinha ouvido falar dessas empresas nem da dita senhora antes do primeiro artigo da Visão.

Por maioria de razão, nunca houve qualquer relacionamento entre elas e alguma empresa a que eu esteja associado.

Acresce que em nenhum dos projectos referidos (no essencial campanhas eleitorais autárquicas e nacionais) houve qualquer envolvimento de empresas a que eu esteja associado. Portanto, não há maneira de me envolver no assunto.

Não há maneira de me associarem a este dossiê, julgava eu. Miguel Carvalho encontrou uma: “a senhora odeia Luís Paixão Martins”.

Registe-se que, na primeira edição da Visão sobre este assunto, a pessoa a quem a senhora “odiava” era um concorrente meu. Mas na segunda edição, lá vinha acrescentado o meu nome à lista de ódios. E com isso era feito um destaque todo catita. 

Sim, pois, não foi Miguel Carvalho quem inventou. Foram certamente novas fontes que contactaram Miguel Carvalho, ao longo da semana, entre uma edição e outra. “Eh pá, esqueceste-te de mencionar o lpm. Ela também odeia o gajo”.

O facto de se fazer destaque numa “investigação jornalística” a uma treta destas diz bem da qualidade da dita “investigação jornalística”, do peso dos dados, da relevância dos factos contidos na mesma…

Na mesma edição, Miguel Carvalho resolve chamar a atenção para outras duas empresas que teriam contratos com uma empresa pública de Gaia, envolvendo-as numa “teia” fantasista, e, como não lhe era possível imprimir o meu nome associado a elas, lá fez a malícia de identificar com os meus apelidos uma pessoa cujo nome profissional é outro.

Até aqui refiro-me apenas ao publicado pela “Visão”. Mas a questão essencial é outra. 

O problema para Miguel Carvalho é que as perguntas foram-lhe respondidas com objectividade e nas respostas se desmentia antecipadamente o que a “Visão” publica hoje 

O que os leitores da revista não sabem é que Miguel Carvalho fez diligências junto destas empresas para obter informações acerca dos tais contratos.

Sim, enviou um email com perguntas. Estaria certamente à espera de não ter resposta para poder dar a ideia de que quis exercer o dever profissional e ético de ouvir todas as partes.

O problema para Miguel Carvalho é que as perguntas foram-lhe respondidas por quem de direito e com o máximo de objectividade possível e nas respostas se desmentia antecipadamente o que a “Visão” publica hoje, quase um mês mais tarde. (Será que a Direcção da “Visão” ou quem escreveu a nota de hoje conhece as declarações?).

Das respostas se pode concluir que o montante em causa é apenas 10% (10 por cento) do referido, que a prestação de serviços, apesar de contratada em ano eleitoral, era repetição do que havia ocorrido em anos anteriores, e que tinha sido efectivamente prestada (mediatização do Porto Wine Festival e outros).

E concluía-se ainda, para quem não soubesse de um facto absolutamente do domínio público, que nem eu nem nenhuma empresa a que estou associado estivemos envolvidos na campanha de Menezes para a CM Porto e que, pelo contrário, trabalhámos com a candidatura concorrente do Partido Socialista.

O mercado também sabe que a referida campanha de Menezes foi publicamente assinada por notórios concorrentes da LPM.

Acresce que, sendo militante do PSD o director-geral de uma das empresas referidas pela “Visão”, são publicamente conhecidas as suas divergências políticas com Menezes. Basta consultar o arquivo do blogue em que escreve… 

A questão que se coloca é a seguinte: para quê questionar os alvos de uma “investigação jornalística” se depois não se dá publicidade às suas respostas?

Pode-se começar por supor que Miguel Carvalho quis fingir que cumpria as exigências da ética jornalística. Mas pode-se também especular que ele visava atingir ainda mais esses alvos, a partir de informações manipuladas que lhe tinham fornecido, e que as respostas entretanto dadas o impediram de o fazer. Se foi assim, se os factos desmentiam as suas fontes originais, não se compreende que tenha mantido a identificação das empresas - a menos que esteja numa atitude de má-fé.

Pode-se especular muita coisa (o que ficará para próxima oportunidade), mas, na minha opinião, o problema de Miguel Carvalho e da Visão é outro bem diferente: os dados destroem a narrativa naquilo que a mim dizem respeito. E como não se quer alterar a narrativa omitem-se os dados. E até se publicam falsidades - como o demonstra o recorte que ilustra este apontamento.

E, se esse procedimento é seguido em relação a um actor secundário como é o meu caso, imagine-se o que será feito com os verdadeiros protagonistas daquela e de outras tretas publicadas.

Acresce que a narrativa agora assinada por Miguel Carvalho já tinha sido publicada, há meses, num blogue local (Infelizmente para o Jornalismo e os Media profissionais, muito do chamado “jornalismo de investigação” contemporâneo é replicar o publicado em blogues). 

Na altura, alguém explicou que existia concorrência entre Menezes e Pizarro e entre as três consultoras de Comunicação mencionadas. E alguém respondeu qualquer coisa do género “é tudo a mesma coisa”.

É este último “argumento” que a Visão (publicação do Grupo Impresa de Francisco Pinto Balsemão) hoje reproduz quando me associa ao “centrão da política e dos negócios”. “É tudo o mesmo centrão”. 

Confirmo que lido mesmo muito mal com os cozinhados disfarçados de “investigação jornalística” de Miguel Carvalho e da “Visão”

PS: O escrito de hoje acaba por ser singelamente revelador das práticas seguidas por Miguel Carvalho e a “Visão”. Diz que eu “lido mal com o calor da cozinha”. Afirmativo. Confirmo que lido mesmo muito mal com os cozinhados disfarçados de “investigação jornalística” de Miguel Carvalho e da “Visão”. Mas não é uma questão de calor. É uma questão de rigor e de decência, atributos que mantenho hoje em dia e que foram ensinados nas redacções onde trabalhei. O problema do “jornalismo dos cozinhados” é que os leitores não estão disponíveis para pagar uma refeição apresentada como de “gourmet” mas que é igual a outra que comeram, meses antes, a preços económicos na tasca da esquina.