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Os dois casos em que a Reputação foi considerada dano colateral

POSTED BY: TdQ | Sex, 21/11/2014 - 09:54

Num clima de indignação generalizada e sem critério, as decisões controversas tendem a ser ultrapassadas muito rapidamente por outros episódios.

Reputation reputação

A Reputação foi considerada dano colateral?

Em apenas um par de dias tivemos dois episódios que merecem ser avaliados à luz da disciplina da Reputação.

Primeiro foi o anúncio feito pela Galp (e, com outro perfil, pela REN) de que se tinha auto-excluído do pagamento de um imposto.

Na cenarização dos impactos da decisão, a companhia, uma das mais importantes da economia nacional e alvo regular de contestação pública, terá contado que se tornaria num “adversário útil” para o governo.  

De facto, o ministro do Ambiente, um político relativamente jovem que sobressai na tristeza generalizada do executivo, abraçou a oportunidade com toda a energia iniciando com um forte evento mediático (a visita do Fisco) a campanha que irá tentar prolongar no tempo.

Quase em simultâneo, dois deputados com muita experiência, representando os dois maiores partidos nacionais (e, por coincidência interessante, ambos do círculo do Porto), tornaram público o processo de descongelamento de uns subsídios que beneficiam antigos deputados.

Trata-se de uma iniciativa que, como os autores estão fartos de saber, gera uma gigante vaga de fundo contra o pessoal da política e as próprias instituições da República, a começar pelo parlamento.

Não estamos perante decisões “distraídas”.

Tanto a Galp como Fernando Couto dos Santos e José Lello sabiam antecipadamente no que se estavam a meter.

A Galp tem um rigoroso modelo de “governance” e um passo destes terá, obrigatoriamente, de ser avaliado ao mais alto nível, incluindo o accionista que controla a empresa.

Os dois deputados têm muitos anos de funções parlamentares e de outras na administração pública e na vida privada. À sua experiência junta-se certamente as reacções que foram recolhendo dos colegas de bancada e das direcções nacionais dos seus partidos.

E, sendo assim, porque é que tivemos duas iniciativas que se sabia à partida irem afectar sobremaneira a Reputação das instituições que as protagonizam?

Resposta simples: porque a Reputação foi considerada um elemento secundário – um dano colateral – na análise do que estava em jogo. (A minha experiência diz que, perante decisões que contêm consequências financeiras, a Reputação tende a ser desvalorizada exactamente porque esta é mais uma disciplina das RP que não é avaliada em custos e proveitos).

Resposta mais complicada: porque os autores das decisões entenderam que, num clima de indignação generalizada e sem critério, as decisões controversas tendem a ser ultrapassadas muito rapidamente por outros episódios. (Sou do tempo em que se falava do ciclo noticioso das 24 horas. Agora temos o ciclo “indignoso” das 24 horas).

Talvez tenham razão. Mas, embora disponha de menos dados do que os decisores, penso que erraram na avaliação. E que estes casos de Reputação, sobretudo o empresarial (porque vai continuar a ter um agente propagador profissional e com acesso aos Media) , não se extinguirão rapidamente.  

Actualização: A reavaliação da iniciativa bipartidária, já depois das primeiras reacções públicas, produziu outros resultados

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q