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Os jornalistas são “preguiçosos” quando exercem na assessoria do governo?

POSTED BY: TdQ | Seg, 27/10/2014 - 09:30

Improvisos pobres, com ideias confusas, empregando palavras de significado impreciso e sem fio condutor não geram peças jornalísticas coerentes e profundas. Geram especulação. 

Comunicação governo

A comunicação é central à acção política

A comunicação de Pedro Passos Coelho é definida pela espontaneidade da forma e do conteúdo. 

Há protagonistas que não evitam a leitura de apontamentos, outros – para esconderem a preparação - optam por decorar as partes essenciais das suas comunicações, há os que estudam e preparam cuidadosamente os “soundbites”, fazendo-os parecer espontâneos, mas o nosso primeiro-ministro tem um estilo muito próprio.

Com ele o conceito de espontaneidade ganhou todo um novo significado: quem ouve Passos Coelho com ouvidos de profissional fica a pensar que ele não prepara as suas intervenções e que confia plenamente numa intrínseca capacidade de comunicar.

O resultado é visível: muitas frases redondas, palavras pobres, conceitos mal expressos, falhas no português, discursos que saltitam, avançam e voltam atrás, aparentemente sem rumo nem destino.

E, claro, alguns mal-entendidos.

Neste fim-de-semana fica generalizada a ideia, pelas notícias dedicadas a uma comunicação de Passos Coelho, que este chamou “preguiçosos” e “patéticos” aos jornalistas (e aos comentadores) tomados pela generalidade.

Na realidade, se nos dermos ao trabalho (para que não nos julguem preguiçosos) de procurar o contexto, o que parece resultar do dito é a acusação feita pelo primeiro-ministro de que os sujeitos do sistema mediático – sejam eles os que noticiam sejam eles os que comentam – são superficiais, que não se preparam nem aprofundam os temas.

O “preguiçoso” não é utilizado, neste caso, como sinónimo de pouco trabalho, como já vi referido, mas como uma designação infeliz (ou infantil) de qualificar a superficialidade.

Ora, na verdade, todos os espíritos objectivos tenderão a considerar que o sistema mediático promove a superficialidade da comunicação – é a guerra onde todos os combates são ganhos pelos “soundbites” e não há nada mais superficial que um “soundbite” – e que se torna virtualmente impossível obter nos Media o conhecimento aprofundado de um tema complexo.

Ler jornais é saber mais, OK, mas não é saber muito.

Mas, no caso de Pedro Passos Coelho, o problema dessa tal “preguiça” que é a superficialidade e falta de rigor coloca-se, infelizmente, a jusante.

Como é possível esperar que o sistema mediático produza uma percepção correcta daquilo que ele diz e daquilo que o governo faz se o próprio primeiro-ministro não prepara convenientemente (isto é, profissionalmente) as suas comunicações?

Como pode um improviso pobre, com ideias confusas, empregando palavras de significado impreciso, sem fio condutor, gerar peças jornalistas coerentes e profundas?

Basta ir ao Youtube visionar meia-dúzia das intervenções de Passos Coelho para se avaliar a dimensão do problema que refiro. Sim, problema porque a comunicação é uma competência central da acção política.

Creio que o primeiro-ministro utilizará pouco os serviços dos consultores e dos assessores de comunicação que o seu governo contratou.

Mas, se porventura estou errado, então, ao ouvir o discurso dos “preguiçosos” e outros idênticos, é caso para dizer que os “preguiçosos” neste caso foram os jornalistas que trabalham no seu gabinete porque não prepararam convenientemente os conteúdos nem prepararam adequadamente a intervenção.

Uma nota final: este governo, como todos os anteriores, cometeu o terrível erro de recrutar assessores de comunicação entre jornalistas sem qualquer experiência de assessoria de comunicação. É como recrutar engenheiros de obras públicas para as operações de engenharia de sistemas. Se bem que, pelo que estamos a ver com o Citius, é provalmente o que foi feito.

 Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q