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A prisão de um Político e a Comunicação da Investigação

POSTED BY: TdQ | Qui, 27/11/2014 - 11:06

A competência mediática do ex-primeiro-ministro José Sócrates pode tornar a sua “preventiva” num momento crítico para o Sistema de Justiça.

Prisão

A prisão no início e não no fim

Uma das regras básicas da Comunicação é que o Protagonista deve comunicar sempre. Por vezes, fingindo que não comunica, usando terceiras partes, outras vezes de forma selectiva, cirúrgica, outras ainda influenciando através do “off” e do “não atribuível”.

As situações polémicas, mesmo as mais desfavoráveis, não constituem excepção. Mesmo que pareça que “toda a gente” está contra, o Protagonista tem obrigação de criar uma narrativa que possa ser reproduzida pelos seus públicos.

No tempo do monopólio do “gatekeeper” havia situações em que era difícil, em ambientes negativos, conseguir franquear os “muros” do mediaticamente aceitável - muitas vezes confundido e identificado como o “politicamente correcto”.

Mas esse tempo passou. Os meios de Comunicação, profissionais ou não, estão agora acessíveis. E o território sem regras dos Media Sociais acaba por influenciar os próprios Media do “gatekeeper”.

José Sócrates, um político que chegou a reunir 3 milhões de votantes, foi preso com espectáculo para que a Investigação marcasse pontos mediáticos. Um dos argumentos da “preventiva”, segundo se conseguiu perceber não oficialmente, foi o evitar “a perturbação do inquérito”.

A prisão preventiva tem um problema de imagem: a prisão é percebida como o fim e não como o princípio

Ora, se o conceito de “perturbação” abrange o espaço público e o sistema mediático, como o plano de Comunicação da Investigação parece sugerir, então vamos assistir, nos próximos meses, a uma confrontação do nosso Sistema de Justiça como provavelmente nunca antes ocorreu.

Se a prisão de Sócrates está a ser vista, num primeiro momento, como um episódio essencial de mudanças no Sistema Político, a competência mediática do ex-primeiro-ministro poderá torná-lo num momento crítico para o Sistema de Justiça.

A menos que o Sistema de Justiça consiga anular a capacidade de produzir factos de Sócrates e aliados disputando o espaço mediático ao apresentar episódios como o do passado fim-de-semana. E este cenário não é tão irónico como pode parecer.

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q