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Será que a Universidade está a falhar na preparação de futuros consultores de Comunicação?

POSTED BY: TdQ | Sex, 03/10/2014 - 08:56

Conselho de veterano profissional e empregador: não percam demasiado tempo com a Academia. 

universidade praxes

A vida profissional é muito diferente

 

Será que a Universidade está a falhar na preparação de futuros consultores de Comunicação? A pergunta é feita num apontamento de Arik Harson que releva o desajustamento entre a preparação académica e as actividades profissionais. 

O apontamento é um simples alerta, pouco mais de um desabafo, e não contém a ambição de responder a tão estimulante pergunta. Mas enuncia as dificuldades sentidas na carreira profissional por aqueles que cursaram RP (ou áreas concomitantes) sem que tivessem tido programas de produção vídeo, de gestão de facebook ou de desenvolvimento de powerpoint. 

Minudências, dirão alguns. Talvez, mas estamos perante tarefas essenciais no quotidiano de um técnico de Comunicação.

Ter formação académica na área profissional que se escolheu é, hoje em dia, factor essencial de empregabilidade. É impossível admitir o oposto.

No entanto, não devemos sobrevalorizar o papel da Universidade no futuro dos seus formados, apesar de continuar arreigada a ideia de que um curso (um diploma…) é condição suficiente para uma carreira profissional. 

Há muita gente que não compreende mesmo que, depois de tanto investimento de tempo e dinheiro feito num percurso académico, seja tão modesta a retribuição dos jovens licenciados.

Ora, existem diferenças gritantes entre a formação proporcionada pela Academia e as solicitações do mercado de trabalho, pelo que as actividades dos jovens profissionais são, geralmente, pouco produtivas. É na empresa, em contacto com colegas com mais experiência e sob uma direcção orientada para os resultados, que eles obtêm o essencial das ferramentas de trabalho.

Por isso, deixo aqui um conselho que talvez surpreenda muitos do que me estão a ler mas que resulta da minha experiência de vida como trabalhador e como empregador: não percam demasiado tempo com a Universidade.

Isto é, invistam num curso que vos proporcione oportunidades de emprego (isto, claro, se não estiverem à espera da herança da tia milionária). Sejam competentes na Escola, obtenham bons resultados, potenciem os elementos de aprendizagem colocados à vossa disposição.

Mas não encarem o curso como um fim em si mesmo, nem a Universidade como o meio único para a vossa formação. 

Identifiquem no exterior da Escola e extra curso outras oportunidades, ambientes e ferramentas que sejam tanto ou mais úteis para a vossa futura vida profissional que a Universidade.

E cheguem cedo ao mercado de trabalho. A vida profissional é muito diferente da experiência académica. A vossa experiência nas empresas vai ser sempre o mais importante

E cheguem cedo ao mercado de trabalho. A vida profissional é muito diferente da experiência académica. A vossa experiência nas empresas vai ser sempre o mais importante.

É assim que criarão os factores de diferenciação no mercado de trabalho.

Já viram o interesse para a Comunicação Financeira de ter técnicos de RP com conhecimentos contabilísticos (que saibam ler uma demonstração de resultados, por exemplo) ou para o ORM (Online Reputation Management) profissionais super-dotados nas ferramentas web? E o conhecimento de línguas terceiras (para além dos obrigatórios português e inglês)?

Porque profisionalizei-me ainda muito novo (17 anos) e, por isso, não consegui acabar (nem fiz grande esforço para isso…) um curso universitário, não serei um bom exemplo adaptado às normas actuais. 

Mas, mesmo assim, sublinho que a minha vida profissional ficou a dever menos ao ensino formal que me foi ministrado do que à formação empírica em comunicação, redacção, locução, etc. que obtive em plataformas informais como a ERE (Equipa de Rádio do Liceu Camões) e RU (Rádio Universidade), onde se trabalhava em equipa, numa lógica multidisciplinar e em imersão técnica.

Já pensaram no contrassenso que é a Academia propôr uma formação por disciplinas com vista a um mundo profissional em que se privilegia o trabalho em equipa e a multidisciplinariedade? 

Este apontamento foi originalmente publicado por Luís Paixão Martins no blogue A Teoria do Q